Menu:


Ao Vivo

Links Úteis

Nossa Audiência


Estatísticas:

Total de visitas: 298780
Visitas hoje: 47


Mulher descendente de escravos relembra o passado em São José

Município da Grande Florianópolis comemora nesta segunda-feira 262 anos, e a lavadeira aposentada fala de seu amor à cidade


Rádio— Nasci aqui e quero morrer aqui. Amo essa cidade.

Assim começa a entrevista com Alcina Julia da Conceição, 94 anos — mulher, negra e neta de escravos —, uma história viva do passado do município de São José, na Grande Florianópolis, que completa nesta segunda-feira 262 anos de fundação.

A senhora com os cabelos brancos em contraste com a pele escura é quem nos conta histórias do tempo quando os homens andavam com chapéus e as mulheres, com seus vestidos longos, sentavam-se nos jardins das casas para conversar. Cega e com um terço nas mãos, ela nos faz viajar ao passado.

— Quando tinha 13 anos vi o Zeppelin passar. Era um tempo muito bom, não tinha perigo, malandragem e nem drogas. — lembra com nostalgia, referindo-se ao antigo dirigível.

Alcina nasceu em 1918, em uma antiga região chamada de Mato da Coruja, próximo ao Centro Histórico. Desde cedo ajudava nas despesas da casa. Da infância pobre, lembra quando ela e os quatro irmãos se sentavam na sala da pequena casa de madeira para ouvir as histórias de sua avó, Julia da Conceição, que veio em um navio negreiro, da África.

— Ela contava que vieram todos em um porão e os que ficavam doentes na viagem eram jogados ao mar — lembra.

Berbigão e ostras na Praia Comprida

Para ajudar em casa, Alcina colhia ostras e berbigão na Praia Comprida. Mais tarde trabalhou como empregada na casa de vários senhores na cidade e, aos 15 anos, começou a trabalhar como lavadeira. Ela e mais 13 jovens, tiravam o sustento lavando roupa no Beco da Carioca. O prefeito era João Machado Pacheco Junior (1933-1941), e o Beco da Carioca, um dos locais mais bonitos da região.

— A água era pura e cristalina. Naquela época, não tínhamos água da Casan. Vinha gente de Florianópolis pegar água de tão cristalina que era. A gente ficava de joelho, esfregava a roupa com sabão Joinville e colocava a roupa pra ferver no tacho. Hoje deixaram o local se acabar — lamenta.

Católica fervorosa e devota de Nossa Senhora Aparecida, Dona Alcina lembra com saudade das festas religiosas. O dia de São José, padroeiro da cidade, comemorado em 19 de março, ela não perdia. Da época, sente saudades também dos bailes entre os negros.

— Era atrás da igreja. Era só aparecer alguém com violão, um cavaquinho, depois o pandeiro e pronto. Afesta estava feita — conta ela.

Tempos que não voltam

Falta também do antigo armazém que moradores se reuniam. O local ainda existe na esquina entre a praça e a atual Câmara de Vereadores. O cinema, a cadeia em frente à praça e onde hoje é o museu, que foi um dia casa de José Laurindo, fazem parte das lembranças de Alcina.

— Na praça, em frente à igreja ficava a rapaziada vendendo bala. Me lembro que onde hoje é o Hospital Regional era um convento de padres — conta.

Alcina até hoje mora no Centro Histórico. Ela tem 21 netos, 47 bisnetos e 18 tataranetos e diz que não sai de São José, cidade que nasceu e que escolheu para viver e morrer.


FONTE: HORA DE SANTA CATARINA


Ver todas as notícias